PALESTINA

Entrevista da brasileira do navio atacado em Gaza

Vi muito sangue e comecei a passar mal‘, diz brasileira sobre ataque de Israel

Foto: Sebastian Piras

No aeroporto de Nova York, a cineasta Iara Lee afirmou ter imagens exclusivas e em alta definição dos ataques. O material ficou escondido na cueca de um cinegrafista da Sérvia. Após analisar detalhadamente o conteúdo, ela pretende divulgá-lo para a imprensa e encaminhar à ONU

Babeth Bettencourt
Fonte: BBC Brasil

A ativista e cineasta brasileira Iara Lee, detida por tropas israelenses na ação militar contra embarcações que levavam ajuda humanitária a Gaza na segunda-feira passada, disse que viu “muito sangue” e que começou “a passar mal” quando subiu ao convés do barco em que viajava.

Em entrevista à BBC Brasil, de Istambul, onde chegou nesta quinta-feira de madrugada junto com um grupo de cerca de 450 ativistas deportados de Israel, Iara contou que os atiradores de elite do Exército de Israel entraram no principal navio da frota, o Mavi Marmara, “atirando para matar”.

Ela disse que o operador de internet do barco foi morto com um tiro na cabeça.

Iara contou que estava embaixo do convés no momento do ataque, e que quando subiu para procurar seu cinegrafista, viu quatro corpos e vários feridos. Ela afirmou, entretanto, que não testemunhou as mortes.

“Era muito sangue, eu comecei a passar mal, tive ânsia de vômito e até desisti de procurá-lo.”

A cineasta contou ainda ter ouvido relato de outros ocupantes do barco de que soldados israelenses tinham sido vistos “atirando corpos no mar”.

“Nossa contabilidade é de que 19 pessoas morreram. Ainda há gente desaparecida, não sabemos o que aconteceu com eles. E ainda há feridos muito graves, praticamente morrendo, que não conseguimos retirar do hospital em Tel Aviv.”

Para a cineasta, a violência usada pelas tropas na ação foi desproporcional.

“Nos barcos pequenos, eles usaram balas de borracha, gás lacrimogêneo e armas de choque. Mas no nosso barco, eles chegaram usando munição de verdade”, conta.

A cineasta contou que a abordagem israelense ocorreu por volta de 04h30 da madrugada, no escuro, e que foi muito rápida.

“Tinha dois barcos da Marinha. Quando a gente piscou apareceram dezenas de barcos de borracha, helicópteros, atiradores de elite descendo no barco. A marca registrada deles é o silêncio, fomos pegos de repente”, ela lembra.

Iara acredita que os soldados ficaram assustados com o número de passageiros a bordo – mais de 600 – e que, por isso, ele podem ter optado por uma ação rápida com o objetivo de assumir imediatamente o controle do barco.

“Esperávamos que eles atirassem para o alto, em direção aos nossos pés, para nos assustar. Imaginávamos que eles fossem tentar jogar redes nos nossos motores, deixar a gente à deriva no meio do mar, mas nunca imaginamos isso.”

Depois da abordagem, as embarcações da tropa foram levadas para o porto de Ashdod, em Israel, com todos os passageiros algemados. “Quando mandaram a gente descer do barco, já tinham jogado todo o conteúdo de nossas malas no chão, estava tudo misturado. Eram roupas, laptops, pijama, escova de dentes, tudo junto.”

Mas Iara disse que os ativistas conseguiram salvar registros do ataque que teriam sido escondidos em peças de roupas.

“A gente conseguiu salvar algumas fitas com imagens do ataque, que costuramos nas nossas roupas e não foram encontradas pelas autoridades israelenses.”

Iara Lee saiu do Brasil em 1989 e passou 15 anos nos Estados Unidos, onde é radicada. Nos últimos cinco anos, ela morou em diversos países, entre eles Irã, Tunísia e França, onde filmou documentários.


*Suprimimos alguns trechos do texto que pode ser visto na íntegra acessando o link da fonte; acrescentamos foto e legenda

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