COPA 2010

Os secretos soldadinhos robots de Dunga

Dunga se isola com a seleção. Não deixa os jornalistas trabalharem, não deixa os jogadores falarem. As emissoras de televisão e os profissionais de imprensa e de outras mídias estão sempre de fora. Prejuízo para todos. Para os patrocinadores que não tem divulgadas as imagens dos atletas, para os meios de comunicação que não tem o que o informar. Para a torcida que não sabe o que está acontecendo. A situação é muito pior que nos tempos da ditadura, dizem experientes jornalistas

Ilustração Toinho de Passira

Na reportagem de Veja desta semana, o jornalista Carlos Maranhão descreve a situação da cobertura da copa, da seleção brasileira, como se estivesse cobrindo uma tropa secreta em guerra.

Toinho de Passira
Fonte: Revista Veja

“Protegidos em seu QG ou entrincheirados, comportam-se como se estivessem em campanha – não futebolística, na disputa de um campeonato mundial, mas numa operação militar. Além de enfrentarem os adversários encarados como inimigos – primeiro a Coreia do Norte, batida na estreia de terça-feira passada pelo magro e preocupante placar de 2 a 1, neste domingo a Costa do Marfim e na próxima sexta Portugal –, eles foram longamente instruídos sobre como defrontar o que seu superior hierárquico considera outro tipo de obstáculo:a imprensa.

Nada de ficar dando entrevistas ou aparecer na TV. Só podem abrir a boca, sem nenhuma crítica ao batalhão, dentro de um código rígido. A cada dia, como num rodízio de sentinelas, dois deles são designados para a missão de participar de uma coletiva de imprensa, em que cerca de 200 jornalistas, mantidos a distância em suas cadeiras, disputam o direito de formular perguntas durante meia hora.

Foto: Getty Images

Caminhão de externa da Globo, com capacidade de transmissão ao vivo por satélite, fora do hotel em Randpark, o Fairways Golf Club, em Johanesburgo, onde fica o impenetrável campo de concentração da Seleção Brasileira.

Na véspera e depois das partidas, cumprindo uma determinação da Fifa, todos passam por uma espécie de corredor polonês em zigue-zague, entre o vestiário e o ônibus, a chamada zona mista, e os que concordarem param diante dos repórteres que se acotovelam. Alguns seguem marchando, como fez o lateral Maicon após a estreia, com a justificativa de que estivera na coletiva anterior. O atacante Robinho “ouve” a primeira indagação sem tirar do ouvido o fone do iPod.

O comandante, esse, atravessa o corredor de nariz erguido, passos cadenciados, um, dois, feijão com arroz. Suas únicas aparições são nas tais coletivas obrigatórias, quando dá espetadas com sua baioneta e afirma que essa “é uma forma nova de trabalhar”. Na hora dos treinamentos, ninguém chega perto da soldadesca nem da intendência – roupeiro, massagista, auxiliares, igualmente proibidos de se pronunciar. Com frequência, são manobras secretas.

Foto: Reuters

Ou, ainda na definição do comandante, privadas. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, comentou o goleiro Júlio César (foto) na coletiva de sexta passada.

É assim que vem sendo a vida dos pentacampeões mundiais em seu teatro de operações na África do Sul. Aqui o que menos importa são as dificuldades de trabalho dos jornalistas. A questão é que, ao trancar os jogadores, impedir o acesso aos treinamentos e limitar ao máximo as entrevistas, o comandante Dunga, radicalizando seu maquiavelismo, transmite a seguinte mensagem: assistam aos nossos jogos, torçam pela nossa vitória, mas por favor não nos importunem com críticas e pedidos. Faz com isso uma inversão de papéis, pois não são os jornalistas que ele afasta, mas todos os brasileiros que acompanham apaixonadamente a seleção a distância e ficam privados de informações. Entre uma Copa e outra, o futebol é alvo de interesse exclusivo dos torcedores de clube. Durante os trinta dias do Mundial, porém, é a nação de 193 milhões de habitantes que veste a camisa amarela.


O problema de Dunga é que ele pensa que é “as pregas de Odete.”

Jamais ocorreu nada semelhante na história dos canarinhos. “Na Copa de 70, três vezes por semana, dois jornalistas almoçavam com a delegação e falavam com quem queriam”, lembra o ex-lateral Carlos Alberto Torres. “É preciso manter essa boa relação, porque o país inteiro está interessado em acompanhar o que acontece com nossa seleção.” Em competições passadas, o técnico e os jogadores davam entrevistas diariamente, antes e depois dos treinos.

Havia exagero, é claro, com a publicação de uma avalanche de notícias e uma batelada de irrelevâncias, embora nesse período leitores, telespectadores, ouvintes e internautas fiquem curiosos para saber se a dor nas costas de Júlio César poderia impedi-lo de atuar, se o meia Kaká comentou com a mulher sua falta de ritmo de jogo ou se o atacante Luis Fabiano estaria preparando uma nova coreografia para comemorar os gols. Durante a semana passada, foi impossível apurar coisas banais como essas.

No período mais duro do regime militar, com a vigência da censura e do AI-5, os ditadores não davam entrevista. Dentro da seleção brasileira, chefiada na Copa de 70 por um brigadeiro e presidida em 1978 por um almirante, chegaram a trabalhar na comissão técnica o capitão Cláudio Coutinho, que seria o treinador “campeão moral” na Argentina, o major Raul Carlesso e mais três militares.

“Mesmo assim, em plena ditadura, a liberdade era maior do que hoje”, compara o experiente comentarista esportivo Orlando Duarte. “Os jornalistas passeavam pelo hotel da seleção à vontade e entrevistavam quem bem entendiam. Nas catorze Copas que cobri, nunca vi nada parecido com o que acontece agora.”
Foto: Getty Images

Sem torcida não havia copa, patrocínio, jogos. Os torcedores são abastecidos por informações fornecidas pela imprensa para manter a paixão. Negar o acesso dos jornalistas, é no mínimo, outra burrice e no mínimo falta de respeito com o torcedor, que está lá e o que está aqui.


*”A Força Expedicionária Brasileira” é título original do texto, assinado por Carlos Maranhão, na VEJA
**Acrescentamos título, subtítulo, fotos e legenda

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