DINHEIRO – Finanças Pessoais

Craques do futebol vão virar investimento


Corinthians, Santos e banco BMG planejam lançar fundos abertos ao público para lucrar com a compra e a venda dos direitos de jogadores
Foto: Arquivo

Neymar e Ganso, mais rentáveis que ações da Petrobras

João Sandrini
Fontes: Portal Exame

Nos últimos anos, ninguém ganhou tanto dinheiro com a compra e venda de direitos econômicos de jogadores de futebol quanto Delcir Sonda, dono da rede de supermercados Sonda. O empresário comprou 45% dos direitos econômicos do meia santista Paulo Henrique Ganso por 2,2 milhões de euros e agora analisa uma proposta de 20 milhões de euros para que o atleta se transfira ao Lyon, da França.

Sonda também é dono de 40% dos direitos do atacante Neymar, pelos quais pagou 3 milhões de euros. Especula-se que o jogador pode se transferir para o West Ham ou o Chelsea por um valor próximo à multa de 35 milhões de euros prevista em seu contrato com o Santos. Antes disso, o empresário já havia ganhado uma bolada com a transferência do zagueiro Breno para o Bayern de Munique, do atacante Nilmar para o espanhol Villarreal e do santista André para o Dínamo de Kiev.

Também pertencem a Sonda percentuais dos direitos dos corintianos Dentinho e Bruno César e dos colorados D’Alessandro e Taison, entre outros.

Ao ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo, Sonda obteve uma rentabilidade maior que a de outras aplicações tradicionais e lucrativas como ações e imóveis.

Inspirados no sucesso de Sonda, já estão em gestação no Brasil ao menos três fundos de investimento que planejam lucrar com as transações de jogadores: um ligado ao Corinthians, outro ao Santos e um terceiro do banco BMG.

Entre os times, o veículo de investimento mais maduro é o do Santos, que planeja captar 20 milhões de reais nas próximas semanas. O dinheiro servirá tanto para manter no clube alguns dos craques que já fazem parte do elenco quanto para trazer outros jogadores.

A criação da Terceira Estrela Investimentos S.A. foi aprovada no mês passado pelo conselho do clube. Inicialmente a empresa será uma sociedade fechada. Dentro os investidores convidados a participar, estão Walter Schalka (Votorantim Cimentos), Álvaro Simões (Inpar), Álvaro de Souza (ex-presidente do Citibank), José Berenguer Neto (Santander) e Eduardo Vassimon (Itaú BBA) – todos torcedores do clube com ideias alinhadas às do atual presidente, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro.

Os planos futuros, no entanto, são bem mais ambiciosos. A Terceira Estrela planeja se transformar em um fundo registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que permitirá que qualquer investidor qualificado (com mais de 300.000 reais em aplicações financeiras) possa participar. Num terceiro momento, o grupo planeja ir ainda mais longe e convidar Pelé para vender quotas do fundo a investidores estrangeiros.

Obviamente, a viabilidade dos planos vai depender da rentabilidade alcançada pelo fundo no médio prazo. Todos os quotistas que entrarem no fundo querem ajudar o Santos, mas ninguém continuará a colocar dinheiro numa aplicação que perde de goleada para todas as outras.

Outro clube que poderá contar dentro de alguns meses com o suporte financeiro de um fundo é o Corinthians. A iniciativa é capitaneada por Manoel Felix Cintra Neto, diretor-presidente do banco Indusval Multistock, ex-presidente da BM&F e vice-presidente do Corinthians.

Com o aval de Andrés Sanchez, presidente do clube, Cintra Neto quer escalar outros corintianos ilustres – entre eles, o publicitário Washington Olivetto – para a criação de um fundo para a compra de jogadores que atuariam pelo time.

O banqueiro planeja registrar o fundo na CVM, mas, dentro da estrutura planejada, poderão participar apenas investidores superqualificados (que possam colocar ao menos 1 milhão de reais na empreitada).

Único que já tem registro na CVM, o fundo Soccer BR1 não é ligado diretamente a nenhum clube. Com um patrimônio de 30 milhões de reais, o fundo não é obrigado a informar à CVM quem são seus quotistas, mas o mundo da bola sabe que nesse primeiro momento o único investidor é o BMG.

O banco mineiro é presidido por Ricardo Guimarães, um ex-presidente do Atlético-MG apaixonado por futebol. O BMG tem longa tradição em patrocínios a times mineiros, e agora também emprestou diversos atletas a Cruzeiro, América e Atlético-MG. Em São Paulo, adquiriu os direitos econômicos d o zagueiro Leandro Castan e do lateral Moacir e os emprestou ao Corinthians.

Quem acompanha os negócios do futebol diz que, em matéria de escolha de jogadores, o fundo ainda está na zona de rebaixamento. Nenhum jogador comprado se destacou até o momento.

O Soccer BR1 chegou a sondar empresários do futebol aptos a prestar consultoria e ajudar a decidir em que jogadores investir no futuro. Comenta-se no mercado que a assessoria ao fundo estaria sendo prestada informalmente por Wanderley Luxemburgo, técnico do Atlético-MG.

Quando começar a faturar com a venda do jogadores, o Soccer BR1 deve ir a mercado para buscar mais capital junto a novos quotistas.

Outro veículo de investimento em atividade foi montado pela Traffic. A empresa de negócios esportivos montou a Cedro Participações para a compra e venda de jogadores. A maior parte dos 40 milhões de reais foram captados junto ao próprio J.Hawilla, dono da Traffic.

O restante foi colocado por cerca de 20 amigos e parceiros de J.Hawilla. Cada um deles comprou ao menos uma quota de 200.000 reais. Como não houve registro na CVM nem oferta pública, somente os investidores a quem foi oferecido o negócio tiveram a oportunidade de participar.

O dinheiro captado foi rapidamente utilizado para a compra de direitos de jogadores. A cada semestre, o lucro obtido com a revenda desses direitos é retornado aos sócios. Ao final de três anos, todo o dinheiro captado terá sido devolvido.

Entre os grandes negócios fechados, está a transferência de Henrique do Palmeiras para o Barcelona em 2008. O zagueiro custou 6 milhões de reais à Traffic e, cinco meses depois, foi vendido por 10 milhões de euros.

Apesar do excelente retorno econômico, a Traffic rejeita a possibilidade de lançar um novo veículo de investimento quando o atual vencer. Gonçalves acredita que não há no Brasil jogadores suficientes para tantos investidores.

A concorrência no mercado aumentou bastante após a entrada de Sonda, do BMG e de outros empresários nesse filão de mercado “Hoje é difícil alocar 100 milhões de reais em direitos de jovens jogadores.” Por esse motivo, ele explica que novos aportes serão feitos exclusivamente pela Traffic, sem a participação de outros sócios.

Para o advogado Ivandro Sanchez, sócio do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice responsável por contratos de futebol, não será pela falta de bons jogadores que esses fundos deixarão de ganhar dinheiro.

“É possível buscar craques em times de outros países da América do Sul. É natural que o Brasil se torne uma escala antes que esses jogadores se transfiram para a Europa”, diz.

Apesar dos casos de sucesso sempre chamarem mais a atenção do mercado, a vida de quem investe em jogadores de futebol é, na verdade, repleta de vitórias e derrotas.

A própria Traffic diz que um dos cerca de 30 jogadores contratados com o dinheiro da Cedro Participações teve seu contrato vencido antes que seus direitos econômicos fossem comercializados. Dessa forma, o investimento da Cedro no jogador virou pó. E existem muitos outros riscos. O jogador pode se machucar e nunca mais voltar a jogar.

Os clubes europeus podem passar por um momento de dificuldade e aceitarem pagar muito menos pela transferência de um craque. O preço dos jogadores pode subir muito com a maior concorrência entre fundos no Brasil, reduzindo as margens de lucro do negócio.

Esses são alguns dos motivos que levaram a área técnica da CVM a não permitir que o investidor de varejo possa participar desses fundos. “Os riscos inerentes ao futebol são percebidos pelo investidor qualificado, mas não por qualquer torcedor”, diz Claudio Gonçalves Maes, gerente de acompanhamento de fundos da CVM.

Outro problema é que há conflitos de interesse entre o clube e o fundo. No caso do Santos e do Corinthians, o veículo de investimento será montado com objetivo de reforçar o elenco.

“Por um lado, o time será ajudado ao receber uma injeção de capital por meio de um veículo transparente registrado na CVM”, diz Marina Procknor, que trabalha na formatação de fundos de investimento no Mattos Filho Advogados.

“O outro lado da moeda é que esse mesmo fundo poderá ficar inclinado a vender os direitos de um craque meses depois, o que irá contra o interesse do técnico e do próprio clube.”

A maior parte das transferências acaba acontecendo mesmo quando há pressões contrárias. Mas, em muitos casos, a diretoria do clube chega a usar a mídia para jogar os torcedores contra quem trabalha a favor de uma transferência de jogador.

O empresário Wagner Ribeiro, que já foi agente de Kaká e Robinho e hoje trabalha para Neymar, conta que já chegou a receber ameaças de agressão física ao trabalhar a favor da transferência de craques de clubes brasileiros para a Europa.

Outro problema que precisará ser driblado pelos fundos será a concorrência com os empresários que já aprenderam a ganhar dinheiro com jogadores de futebol.

A Traffic, por exemplo, tem contatos nos clubes nacionais que facilitam a inserção de algum craque no plantel e também bons relacionamentos com clubes internacionais que lhe permitem obter a melhor proposta financeira para concretizar uma transferência.

A empresa também conta com uma área de inteligência de pesquisa e uma rede de “olheiros” para identificar os craques de 14 a 18 anos que vão se destacar nos clubes dentro de algum tempo. Dificilmente um fundo recém-constituído nascerá com a infraestrutura necessária para ser competitivo no negócio.

Já para os clubes, a possibilidade de contar com o suporte financeiro de um fundo é vista com muito otimismo. Por serem veículos públicos de investimento, os fundos vão ter que contratar advogados e passar por auditorias, além de dar maior transparência às negociações de jogadores.

Por tabela, os clubes também terão de melhorar a governança e profissionalizar a gestão. Em contrapartida, terão mais dinheiro para manter bons jogadores no Brasil e só liberar craques em caso de propostas irrecusáveis.

A criação de fundos ligados a clubes segue a experiência bem-sucedida do Benfica. Desde que abriu o capital e lançou ações na bolsa de Lisboa em 2007, o principal clube português conquistou títulos nacionais e pôde contar com o talento de vários craques em campo.

Somente entre jogadores que participaram da Copa, o time pôde escalar o volante brasileiro Ramires, o meia argentino Di Maria (vendido ao Real Madrid há duas semanas), o lateral português Coentrão e o atacante paraguaio Cardozo.

O fundo do Benfica responsável pelas transações de jogadores têm sido competente em identificar e comprar grandes talentos do futebol sul-americano a preços baixos e depois lucrar com a revenda para times europeus mais ricos.

Quem comprou as ações do Benfica há três anos, no entanto, não tem tantos motivos para comemorar como o torcedor. Os papéis foram vendidos a 5 euros na oferta inicial, mas hoje são negociados a 2,30 euros.

A desvalorização reflete principalmente a crise na Europa, que abateu as empresas listadas em bolsa de forma generalizada. Mas as perdas também mostram que ganhar dinheiro com futebol pode ser mais difícil do que se imagina.

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