De como a direita deita e rola, mesmo na “clandestinidade”

Diferenças cosméticas são incensadas pelo sistema, que mantém o controle sobre os negócios de Estado e os candidatos do pódio

“Pela primeira vez não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? Querem conquista melhor do que em uma campanha a gente não ter nenhum candidato de direita? Porque antigamente como era a campanha? Era o de centro-esquerda ou de esquerda contra os trogloditas de direita. Era assim em toda campanha”

Luiz Inácio Lula da Silva, 16 de setembro de 2009, no 45º aniversário do IPEA.

Collor e Lula: direita e esquerda de mãos dadas –  tudo pelo poder

“É Lula apoiando Collor, é Collor apoiando Dilma pelos mais carentes. É Lula apoiando Dilma, é Dilma apoiando Collor para o bem da nossa gente”.

Do jingle da campanha de Fernando Collor ao governo de Alagoas.

Trapaceiam maldosamente os que, por oportunismo ou má fé, tentam escamotear as históricas diferenças entre esquerda e direita. Tais malversações semânticas abstraem a própria origem dessa terminologia, que é anterior ao manifesto comunista de 1848, assinado por Karl Marx e Friedrich Engels.

Os epítetos remontam aos albores da Revolução Francesa, em referência ao lugar em que se sentavam as facções dos corpos legislativos franceses. A aristocracia sentava-se à direita do presidente e o terceiro estado (representantes do povo) à esquerda. Então, o ponto que definia o espectro ideológico era o antigo regime, cuja defesa – a direita – implicava o apoio aos interesses aristocráticos ou reais, enquanto ser da esquerda, implicava confrontá-los e pugnar por mudanças radicais.

O poder em primeiro lugar

Convém relembrar esse conflito para acentuar que persistem os fatrores da contradição básica, em que pesem a sofisticação e a mistificação produzidas nos tempos modernos. Em outras palavras: sempre haverá uma direita conservadora, reacionária, preocupada tão somente com a preservação do status quo, dos privilégios da classe dominante, e uma tendência identificada com a idéia de mudança, com a busca de uma sociedade que considere, em primeiro lugar, os dramas das imensas maiorias de explorados.

Essa linha divisória está longe de ultrapassada somente porque os políticos oportunistas resolveram recorrer à alquimia marota que transforma o controle do poder, a manipulação do Estado, em peça motora do processo social.

Esses políticos, com o consentimento e anuência dos formadores de opinião, sobrepõem ao conflito original uma nova equação: tudo consiste em ganhar o poder, nele permanecer ou a ele retornar.

Nessa sofreguidão insaciável, os políticos formulam teoremas de toda espécie para explicar atos e atitudes heterodoxas. São capazes das mais cínicas elucubrações para dourar seus conchavos imorais, que estão na raiz da corrupção do pensamento, responsável por todo um ambiente de licenciosidade, dilapidação e destruição dos pilares do Estado, privatizado não especificamente a serviço de uma classe, mas de alguns interesses de grupos, como já apontava Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”, publicado originalmente em 1958.

Assim, mesmo diante da maquiagem protetora, ainda é possível identificar direita e esquerda no processo atual, aqui e além mar.

A ausência do confronto no pleito de 2010

O pleito presidencial de 2010 no Brasil poderia até ser o supra sumo da tentativa de abolição dos elementos essenciais do espectro direita-esquerda. O sistema trabalhou ardilosamente no sentido de limitar a discussão pública na superfície, de forma a manter o vitorioso método que transforma a gestão das políticas de Estado numa química conveniente, graças à qual os grandes interesses econômicos são brilhantemente preservados e hipertrofiados, enquanto se concede um feixe de migalhas, ilusões e expectativas ao povaréu.

Antes mesmo de oficializados os candidatos presidenciais, em 16 de setembro de 2009, o sr.Luiz Inácio festejou a inexistência de “candidatos de direita” na sua sucessão. Isso aconteceria porque as forças e os interesses do conservadorismo entraram na “clandestinidade”, ante o desgaste imposto pelo processo histórico, preferindo a manipuladora penumbra dos bastidores.

Essa fórmula vingou a partir do esgotamento do método de confronto transparente, cuja maior expressão foi a ditadura militar, e do confronto subreptício, que produziu a mal sucedida experiência do governo Collor. Ambos trataram de sepultar suas matrizes, como é da fatalidade histórica: ironicamente é a direita que aniquila a direita, assim como é a esquerda que aniquila a esquerda.

A revisão semântica e operativa se deu a partir do governo Itamar Franco, fraco por seu caráter “tampão” e provisório, o qual deu certo na introdução do Plano Real, cujos pilares persistem até hoje, com o saldo conjuntural intocado: graças a seus fundamentos monetaristas, a inflação foi reduzida e se mantém sob controle e vigilância do QG monetário do Banco Central.

Manutenção do modelo como cláusula pétrea

Os resultados obtidos pela política macroeconômica se traduzem por uma férrea sustentação dos mecanismos de controle da inflação, em função dos quais seus efeitos colaterais são desprezados. Tanto é que a concentração de renda e o modelo de apropriação da mais valia permanecem no formato do mais perverso capitalismo selvagem: em termos de renda, a metade pobre da população brasileira ganha em soma quase o mesmo valor (12,5% da renda nacional) que os 1% mais ricos (13.3%). E o salário real encolhe, tanto pelo aviltamento do mercado de trabalho como pelo sucateamento dos serviços públicos, notadamente na educação, saúde e previdência.

Desde o governo FHC até hoje, perpreta-se uma fórmula de mascaramento da injustiça social através de subterfúgios como o Bolsa-Família, programa institucionalmente temporário, que opera alguma trasferência de renda para os mais pobres na inconsistência de um subsídio que distorce a própria natureza das fontes de renda rais. Mas que age como um poderoso elemento de chantagem eleitoral.

Meireles como símbolo da hegemonia do mercado

Os quadros da direita – isto é, dos interesses econômicos – permanecem à frente das políticas de Estado. O exemplo mais emblemático é o do presidente do Banco Central, o banqueiro Henrique Meireles, ex-presidente mundial do Bank Boston, que se elegeu deputado federal pelo PSDB de Goiás em 2002 e nem foi exercer o mandato, conquistado a peso de ouro. Por todos os motivos imagináveis, tornou-se o “tzar” da economia sob o governo petista.

Graças a esses quadros, a política tributária é a maior alavanca da dominação das elites. Ela espolia mais os assalariados na tributação da renda, a arrecadação direta, abrindo flancos para reduções e até isenções em benefício dos grandes conglomerados. Já na tributação indireta, os efeitos sobre os que ganham menos são ainda maiores: o décimo mais pobre sofre uma carga total equivalente a 32,8% da sua renda, enquanto o décimo mais rico, apenas 22,7%.

Diferenças cosméticas não preocupam o sistema

Os candidatos do topo não aprofundam as discussão sobre o modelo econômico, porque estão comprometidos com sua manutenção como uma cláusula pétrea. Esse acordo existe no papel desde 2002, quando FHC fez Lula, Serra e Cyro Gomes assinarem documento sobre a intocabilidade dos pactos com o sistema econômico.

Com a blindagem do modelo, a direita e o mercado não têm porque temer o resultado das urnas presidenciais. E ainda podem se dar ao luxo de acompanhar a tendência conservadora dos eleitores com a consolidação da fórmula de conciliação de classes e de interesses políticos exercitada com “louvor” no governo Lula.

Não há surpresa na aliança de poder que reúne em torno da outrora “subversiva” Dilma Roussef o rebotalho da direita de todos os tempos. Os direitistas profissionais não têm do que se queixar nesses oito anos de gozo e prazer. Lula trabalhou e fez concessões de toda espécie para plasmar uma aliança em que todos entram com uma excessiva dose de pragmatismo e apostam com tranquilidade num longo e delicioso reinado, no qual os renegados ideológicos se mostram ideais para a preservação das castas, consolidadas pelo assentimento tácito das massas exploradas.

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