VENEZUELA

A censura aos jornais venezuelanos

Ontem, um dos principais jornais da Venezuela, El Nacional, estampava na primeira página um espaço em branco onde estava escrito a palavra censura. Há um mês das eleições legislativas, a justiça impede que a violência no país, seja registrada pela imprensa, pois este é um dos pontos mais prejudiciais ao governo Chávez, que segundo as pesquisas, corre sérios riscos de perder a maioria legislativa no pleito do próximo mês. A ordem foi judicial, mas todo mundo sabe que o presidente Chávez está por trás de mais essa excrescência

Primeiras páginas do jornal “El Nacional”

EL NACIONAL – Primeira página do dia 13 de agosto, com estarrecedora foto de cadáveres e a primeira página de ontem, 19 de agosto, censurada pela justiça de Chávez

Toinho de Passira
Fontes: AFP, EPA, Jornal do Brasil, Misionlandia, El Nacional, Folha Online, Folha Online, Portal Terra, Veja, Tal e Cual


O jornal venezuelano El Nacional acatando a decisão de um tribunal de Caracas não publicou informações ou fotos sobre episódios de violência. Optou por deixar espaços em branco em sua edição desta quarta-feira, preenchidos apenas pela palavra “censurado” impressa em letras vermelhas.

“Estamos censurados. Isso é inconstitucional e atenta contra a liberdade de expressão”, protestou Miguel Henrique Otero, editor de El Nacional em uma entrevista.

A decisão do tribunal 12 de Caracas, emitida na véspera, proíbe ao jornal “a publicação de imagens, informações e publicidade de qualquer tipo de conteúdo com sangue, armas, mensagens de terror, agressões físicas que aticem conteúdos de guerra e mensagens sobre mortes e assassinatos”.

Foto: El Nacional

A POLÊMICA FOTO – Vários corpos espalhados pelo necrotério.
A legenda dizia: Mortos sem dignidade.

A decisão aconteceu pouco dias depois de El Nacional, duro crítico do governo, ter colocado em sua primeira página uma polêmica foto que mostrava inúmeros corpos no necrotério de Caracas.

“Se aqui houvesse uma foto, vocês veriam um pai chorando por um filho que morreu”, afirma a legenda de um dos espaços em branco publicados na edição de hoje.

Outra sentença do mesmo tribunal estende a proibição a todos os meios impressos do país de publicar por um mês “imagens violentas, sangrentas, grotescas, acontecidos ou não, que de uma forma ou outra vulnerem a integridade psíquica e moral das crianças”.

“Promovem a censura na imprensa”, afirmou na manchete o jornal Tal Cual, que também publicou nesta semana na primeira página a polêmica foto do necrotério de Caracas.

Em Caracas, há 50 mortes violentas a cada final de semana e em todo o país os assassinatos foram mais de 16.000 em 2009, segundo cifras extraoficiais que tornam a Venezuela no país mais violento da região.

O tema está no centro do debate político nos últimos dias, ante as cruciais eleições legislativas de 26 de setembro, nas quais o governo aspira manter pelo menos dois terços da maioria, embora essas pretenções periguem de acordo com as pesquisas.

Segundo a sentença, a imprensa escrita “deve abster-se de realizar publicações de imagens violentas, sangrentas, grotescas, que de uma forma ou de outro vulnerem a integridade psíquica e moral das crianças”.

A Defensoria do Povo e o Conselho de Direitos da Criança anunciaram igualmente que abririam ações judiciais contra El Nacional.

Foto: Reuters

O presidente Chávez aparentemente não teria nada a ver com a censura, que teria sido de origem judicial, mas a promiscuidade do governo e o poder judiciário é tal, que ninguém tem dúvidas que a justiça agiu por ordem do presidente para determinar a proibição.

Chávez também se referiu à fotografia do necrotério e às críticas pela crescente insegurança na Venezuela, ao afirmar que “há uma manipulação politiqueira e pornográfica do tema da violência e da criminalidade”.

“Este tema da violência, do crime, converteu-se num fator antirrevolucionário de peso”, acusou Chávez, insistindo em que o “problema da segurança é um assunto mundial”.

Há alguns dias, o presidente também criticou a transmissão no canal CNN do documentário “Os guardiões de Chávez”, realizado por uma televisão espanhola, que falava da violência em Caracas e a suposta presença de guerrilheiros colombianos na Venezuela.

Não é a primeira vez que Chávez enfrenta a imprensa. Em 2007, a popular emissora de televisão RCTV saiu do ar porque o governo não renovou sua concessão e, há um ano, trinta emissoras de rádios foram fechadas pela mesma razão.

Da mesma forma, a justiça iniciou recursos administrativos contra o canal de notícias Globovisión, que Chávez chama de “terrorista midiático”, e ameaçou fechá-lo em várias oportunidades.

O governo de Chávez não publica cifras da violência há anos e é a imprensa que todas as semanas divulga estatísticas baseando-se no número de corpos que chegam aos necrotérios do país.


O editor do jornal Nacional, Miguel Henrique Otero, disse que a intenção da polêmica era a de “causar um choque para que as pessoas reajam ante a violência”.

“Sua publicação chamou a atenção da sociedade, de uma maneira gráfica e oportuna, sobre uma realidade que se tornou cotidiana”, considerou David Natera, presidente do Bloco da Imprensa Venezuelana, que agrupa os donos de jornais e revistas.

Diante da polêmica criada, vendo o presidente Chávez que a censura estava mais lhe prejudicando que as fotos, determinou que o tribunal voltasse a trás. Assim o Tribunal 12 de Mediação e Substanciação de Caracas “deixou sem efeito” a medida preventiva que tinha tomado na terça-feira passada “no que se refere a todos os meios impressos”, mas a manteve para o diário Tal Cual, de Caracas.

O editor do jornal El Nacional, Miguel Henrique Otero, assegurou em entrevista que a proibição continua para todas as publicações, o que “viola a Constituição e o direito à liberdade de expressão”.

O Editorial do jornal Tal e Cual, de hoje, resume a questão dizendo que “todas as pesquisas de opinião dos últimos anos, registraram que o principal problema que preocupa a população venezuelana é crescente inseguridade. As estatísticas de homicídios, seqüestros, furtos e roubos indicam que estamos diante de uma situação muito complexa que precisa ser abordada com seriedade”


O chargista Weil, do jornal venezuelano “Tal e Cual”, retrata Hugo Chávez como um coturno falante

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