De como os presunçosos perdem as estribeiras e caem do cavalo

“Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis”.

Niccolo Maquiavel (Florença, 1469 —1527 ) em O Príncipe.

Bem que avisei: a oposição “viável”, cheia de si, instigado por rancores e presa ao mofo político, preferiu o haraquiri. Pegou a direta desembestada e caiu do cavalo antes mesmo de setembro chegar.

Por várias vezes, disse e repeti: o adversário da candidata do Lula só teria chance se mostrasse que representava uma alternativa progressista. Isso não seria difícil, porque o governo Lula, além de ter feito todos os gostos do sistema financeiro, dando de lambuja a eliminação, pela cooptação e outras formas de sedução, dos focos de mobilização adversa, ainda se deu ao luxo de cercar-se e fortalecer o que há de pior na política brasileira, mesmo quando isso implicou em oferecer os governos de muitos estados àqueles a quem tratava como ladrões até outro dia.

O rei da cocada preta caiu do galho

É possível que os luas pretas que orientam José Serra tenham-se inspirado em alguns resultados recentes nas eleições do Continente – principalmente as vitórias pela direita de Sebastian Piñera, no Chile; Juan Manoel Santos, na Colômbia, e de Alan Garcia, no Peru. Este último derrotou o general Ollanta Moisés Humala Tasso, apoiado abertamente por Hugo Chávez.

A preocupação de identificar Serra com os eleitores de direita foi tão deliberada que até na propaganda eleitoral, ao falar de sua biografia, é dito que ele foi “presidente dos estudantes brasileiros”, omitindo propositalmente o nome da União Nacional dos Estudantes, a UNE, uma sigla demonizada pela ditadura.

Como o PSDB é muito mais uma empresa do que um partido político, tudo foi tratado sob a ótica do “mercado eleitoral”. Marqueteiros que desconhecem os intestinos partidários e nunca conviveram olho no olho com os eleitores, bem como jornalistas acostumados a análises de camarote cruzaram informações e venderam o peixe podre da vitória inevitável da oposição, por ser detentora de governos importantes como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul e por conta da própria condição de Dilma, uma marinheira de primeira viagem, imposta ao PT e ao espectro partidário situacionista pelo presidente Luiz Inácio.

José Serra se achava desde cedo o rei da cocada preta. Primeiro, definiu que qualquer um poderia ser o candidato da oposição, desde que fosse ele, alijando o governador Aécio Neves, que tem muito mais jogo e maior facilidade de lidar com o eleitorado para além das fronteiras de São Paulo.

Depois, manteve todo mundo de saia justa, à espera da sua fumacinha, que só foi irradiada no último dia do prazo, quando Dilma já havia saído da sombra e assumido o proscênio com um discurso estudadamente palatável, afinado com o modelo vitorioso de Lula, e até mais moderado.

Dilma foi mais ladina ao beijar a mão de dona Lily

Mais ousada do que o tucano, ela fez sua primeira aparição já como candidata justo na casa onde mais se conspirou contra o povo, onde o golpe de 64 foi negociado a peso de ouro, onde o assassinato de muitos “subversivos” foi brindado e onde Collor foi fabricado para impedir a ascensão de Brizola. Tendo a “comunista” Jandira Feghali ao lado, a ex-guerrilheira foi beijar a mão de dona Lily Marinho, na mansão do Cosme Velho que sempre foi o templo do poder paralelo no longo reinado do todo poderso Roberto Marinho.

Com o sorriso da “comunista” Jandira Feghali, Dilma tratou de beijar a mão da viúva de Roberto Marinho na casa que sempre foi o santuário da direita e dos queridinhos do imperialismo

Serra imaginou que a lembrança da Dilma “companheira em armas de José Dirceu”, como este alardeou ao passar o comando das Casa Civil, a tornaria um pesadelo para os defensores da propriedade, sejam os donos do agro-negócio que nunca foram tão favorecidos em nosso país como no governo petista, sejam os pequenos proprietários, sempre temerosos de perderem o que conquistaram a custa do suor do seu rosto.

Certo de que sua eleição eram favas contadas, Serra desprezou regras elementares da cartilha política. Seu vice só foi conhecido nos acréscimos do prazo. E, ao contrário do que se poderia esperar, ao invés de um jovem com a verve da cidade inquieta e cosmopolita, ele preferiu a farda do capitão Jair Bolsonaro, o herói dos porões da ditadura, indo chover no molhado com tal incompetência  que até sua aspiração compensatória de disputar a Prefeitura do Rio em 2012 pode ir por água abaixo.

Marina é uma peça do xadrez oficial

Dilma cuidou de cultivar a arte da prudência. Não entrou nas divididas em relação a quesitos sagrados da esquerda, como na mais recente ofensiva contra o reparo devido aos perseguidos políticos daqueles idos tenebrosos. E deixou que o seu inventor se expusesse nas polêmicas sobre as quais têm um domínio teatral invejável. Lula ganharia o Oscar como intérprete de uma tragicomédia em que seduz as massas com migalhas, não toca no cerne da injustiça social e ainda pode festejar o sucesso das elites, especialmente os banqueiros, cada vez mais ricos e mais concentrados.

Serra não percebeu que Marna Silva era um subproduto elaboado do governo a que serviu por sete anos, e do partido que liberou seu passe sem cobrar multa contratual, apesar da farisáica lei de fidelidade partidária. Seu papel na estratégia palaciana é tumultar o arraial oposicionista, tarefa que cumpriu com louvor ao desmontar a coligação no Estado do Rio, onde o candidato a governador apoiado pelos tucanos e democratas está de mãos atadas na retribuição devida.

Ainda em agosto de temperaturas amenas, já se prevê a vitória da debutante no primeiro turno e por uma margem avassaladora. Vitória que será também, como é do folcore político brasileiro, da velharia corrupta e arrivista, encabeçada pela figura deletéria do decano José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, vulgo Sarney.

Não me pergunte se ainda é possível reverter esse quadro patético. Nada em política é impossível. Mas acho que já é tarde, até porque o pessoal do Serra não sabe o que é “semancol”. Traduzindo: prepare-se para um longo e tenebroso período, que ainda partirá para uma espécie de governo de partido único, do tipo mexicano.

Bem feito, repito. Você pode dizer que nós não merecemos esse desenlace. Eu, porém, não tenho certeza disso.

Postado por PORFIRIO LIVRE
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