ELEIÇÕES 2010

DILMA E O ABORTO

Ou: O que Acontece Quando se Mistura Política e Messianismo?

Eu sou favorável à descriminalização do aborto ou, para evitar bobagens eufemísticas, defendo abertamente sua legalização. Não quer dizer que aplauda ou ache o máximo, mas é uma questão que, para mim, transcende a moral religiosa. Tenho certeza, portanto, que se fosse candidato à Presidência da República num país de maioria conservadora, como o Brasil, seguramente não me daria bem nas eleições.

Nosso povo tem suas características: ele gosta de assistencialismo, adora futebol e telenovelas, é extremamente religioso e às vezes vota maciçamente numa candidata porque um “messias” assim pediu. Desse modo, o PT precisa aprender a respeitar e compreender esse caráter multifacetado, em vez de fomentar alguns atributos, sem aceitar os outros.

Sim, Dilma é favorável à legalização do aborto. Ou era, e de forma inequívoca, até o dia quatro de outubro de 2007, já exercendo o cargo de Ministra Chefe da Casa Civil e já cotada para a sucessão presidencial. Ela não manifestou essa opinião em momento privado ou circunstância de foro íntimo, mas em sabatina pública.

Vejam:

Em três anos da declaração peremptória até hoje, podemos supor que se muda menos uma opinião convicta de uma mulher adulta que as circunstâncias políticas envonvendo eleitores religiosos. Anteontem, sem ser perguntada sobre o tema, declarou-se “em favor da vida”, numa situação bisonha (só faltava ser favorável à morte…). O que é isso senão trazer a religião à política?

Os mais variados grupos surgem em época eleitoral: sem-terras e produtores, bancários e banqueiros, metalúrgicos e montadoras, enfim, são segmentos legítimos de uma sociedade. E os religiosos são, sim, uma parcela legítima que têm todo direito de saber qual a opinião dos candidatos sobre temas de seu interesse.

Aliás, é curiosa a ambigüidade dos discursos dilmistas com diversos grupos. Ela pode aparecer com o boné do MST e ser contra as invasões numa mesma semana; pode ter uma conversa animada com banqueiros e ser aplaudida num sindicato. E isso tudo – ao contrário do que possa parecer numa leitura rápida -, não significa pacto social. É o total inverso.

Quanto aos religiosos, para eles é importante saber o que os candidatos pensam sobre diversos assuntos, entre eles o aborto. Eu, como ateu, não ligo para isso, ou melhor, quero saber o que os LEGISLADORES pensam sobre o tema. E há tópicos relevantes para mim que, na ótica dos religiosos, provavelmente não tenham a menor importância. É assim que funcionam as coisas no mundo democrático: grupos vão atrás de seus interesses. E isso vale para sindicalistas, empresários etc.

E o que fez o PT em relação ao caso recente do aborto? O que sabe fazer. Seu secretário de comunicação, Andre Vargas, mentiu descaradamente e, em seguida, lançou mão de estratégia politicamente estapafúrdia. Vejam trecho de reportagem publicada hoje na FSP:

“O primeiro contra-ataque partiu do secretário de Comunicação do PT, André Vargas. “O Brasil verdadeiramente cristão não votará em quem introduziu a pílula do dia seguinte, que na prática estimula milhões de abortos: Serra”, disse em seu Twitter. A pílula do dia seguinte é um dos métodos contraceptivos criticado pela Igreja Católica e distribuída pelo Ministério de Saúde. Diferentemente do que Vargas sugere, sua adoção foi decidida antes de o tucano José Serra, rival de Dilma no segundo turno, ser titular da pasta. O secretário de Comunicação do PT defende ainda o isolamento da ala do partido pró-legalização. “Agora é hora de envolver mais dirigentes na campanha. Foi um erro ser pautado internamente por algumas feministas. Eu e outros fomos contra”…” (grifos nossos)

Não é CULPA de José Serra que Dilma seja favorável ao aborto. Não adianta empurrar essa bucha para o adversário, muito menos falando mentira. E a pílula do dia seguinte foi instituída ANTES dele chegar ao Ministério. Depois dessa lorota suja (e eles gostam de dizer que baixaria é a praia alheia…), Vargas DESCE A MARRETA NAS FEMINISTAS.

As verdadeiras e legítimas, efetivamente comprometidas com as causas das MULHERES, obviamente não aceitarão isso. Mas aquelas não exatamente ligadas a isso, mais defensoras do PT que das companheiras, entenderão o cinismo e a “necessidade política”. Baixarão a cabeça pro patriarcado, podem apostar, lavando essa louça partidária, em obediência à ordem do chefe da família política. E caladas.

Como se vê, portanto, não é a religião que invade a política, mas os políticos menos privilegiados pelo raciocínio que inventam de invadir a religião. Querem os votos dos cristãos, vão a suas igrejas, fazem orações, ajoelham etc. etc. etc. Daí, quando surge algum fato DEMONSTRANDO que são totalmente contrários a algum dogma, não querem que isso seja divulgado porque seria “baixo” e, para neutralizar o que falsamente chamam de “baixaria”, inventam mentira.

Ou melhor: mais mentira.

Ora! Invadir a igreja alheia sem ter fé bastante? Convocar reunião com líderes religiosos na base da “contenção de crise”? Isso tudo é a verdadeira baixaria, isso tudo é apelar à religiosidade do povo de forma sórdida! E, no auge do desespero, desqualificam setores historicamente ligados ao partido para fazer de conta que são e sempre foram “carolas”? Façavor…

Não, não dá certo. Os religiosos não caem nessa e as pessoas efetivamente comprometidas com a causa da legalização do aborto (não as que obedecem ao patriarcado partidário), agora, também não aceitarão isso. Burrice dupla.

Mas volto àquilo de antes: é incrível como, para alguns militantes, o “povo” pode ser louvado em algumas de suas peculiaridades, como a pouca atenção a escândalos políticos, ou ainda verdadeiramente aplaudido como uma entidade CONSCIENTE quando de suas escolhas eleitorais (ninguém pode se atrever a falar em contrapartida eleitoral a programas de assistência, pois seria menosprezar garantias constitucionais).

Ok, mas quando ESSE MESMO POVO resolve levar em conta também suas convicções religiosas, daí ele é atrasado, burro etc. Então fica assim: se votam em quem “o cara manda”, tá certo, mas se não votam em quem defende a legalização do aborto, tá errado?

Eis a ironia de terem transformado política em messianismo.

Fonte: Blog da IMPRENSA MARROM

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