Minhas três razões para não votar em Dilma Rousseff

Não é que eu só tenha três razões. Tenho mais algumas outras. Mas vou expor as que me parecem ser de interesse mais geral.

Com base em sua carreira ou experiência política anterior, Dilma teria talvez alguns milhares de votos. Eleger-se-ia deputada federal, na melhor das hipóteses.

Em 1989, o Brasil elegeu Fernando Collor de Melo. Bem ou mal, ele tinha uma carreira política. Vinha de ser o governador de Alagoas. Mas advertências quanto ao artificialismo de sua candidatura não faltaram.

O Collor que magnetizou milhões de eleitores e liderou as pesquisas de ponta a ponta também era uma invenção. De pesquiseiros e marqueteiros, no caso . Tanto faz.

O que estou dizendo é que nada substitui o conhecimento da pessoa real. De sua personalidade . E de sua experiência. Se esse conhecimento pode ser dispensado, para que campanha eleitoral ? Para que eleições e, no limite, para que democracia ?

Entre as várias qualidades que Lula pode ter visto em Dilma, uma foi com certeza a fidelidade canina de sua então ministra. Em troca de tal fidelidade, ele a fez candidata e lhe garantiu dezenas de milhões de votos, no melhor estilo caudilhesco. Ela, em troca destas duas coisas, aceitou protagonizar a campanha presidencial menos transparente de nossa história.

A primeira é o caráter inteiramente artificial de sua candidatura. Ninguém ignora que essa Dilma que periga chegar à presidência saiu do bolso do colete de Lula. É uma invenção de Lula.

Minha segunda razão é o retrocesso institucional que vem ocorrendo à vista de todos . Toquei neste assunto dias atrás, a propósito da Receita Federal e das quebras de sigilo . Ontem eu falei sobre a Casa Civil. Vou falar de novo, porque a questão de fundo é o nível de corrupção verdadeiramente espantoso a que temos assistido na era petista .

Dilma não foi acusada diretamente pelo caso Erenice Guerra, mas alguns milhões de eleitores optaram por não lhe conceder o benefício da dúvida. Migraram para Marina Silva. Parecem ter entendido que era tudo “farinha do mesmo saco” – para lembrar uma expressão consagrada pelo próprio petismo.

É certo, Dilma não foi acusada diretamente. Mas convenhamos, Erenice esteve para ela na mesma proporção em que ela está para Lula. Assim como Lula inventou a Dilma-candidata, foi Dilma quem inventou a Erenice -ministra da Casa Civil.

Erenice Guerra tinha condições de ocupar o segundo cargo mais poderoso da República ? É evidente que não. Era difícil prever isso ?

Façamos de conta que não houve propinoduto, nenhum escândalo, nada de estranho na Casa Civil. Que Erenice está lá até hoje, lépida e fagueira. Mas não foi agora em setembro que ela aninhou uma penca de parentes em altos cargos . Foi um bom tempo atrás. Erenice trabalhou muitos anos com Dilma. Era sua mais próxima assessora . Mas do nepotismo da amiga, Dilma nada sabia .

Minha terceira razão é a ideologia petista . É bem verdade que Dilma não foi petista de primeira hora. Ao contrário, Dilma é de uma colheita relativamente tardia. Mas não sei se suas crenças anteriores eram melhores que o petismo no aspecto que desejo focalizar : o ranço totalitário.

Estamos no século 21, mas certas facções ideológicas ainda se vêem como portadoras de um plus capaz de salvar a humanidade. Julgam conhecer – só elas conhecem – o caminho real para o paraíso.

Quem se vê dessa forma salta facilmente para a crença de que os fins justificam os meios. Não há como fazer omelete sem quebrar alguns ovos. Respeitar as regras do jogo, a Constituição, a oposição, a imprensa ?

Em última análise, quem leva isso muito a sério até trai o “povo”, os “pobres” a “classe operária”, ou seja, aqueles que aguardam por nossa liderança na caminhada para o paraíso.

Eis aí o que chamo de ranço totalitário. Sei que muitos petistas já se livraram dele, mas também sei que outros tantos, para não dizer uma ampla maioria, não se livraram.

Dilma Rousseff ainda é portadora desse vírus ? Não faço a menor idéia. Temo que sim.

Mas não posso afirmar taxativamente que sim ou que não. A Dilma Rousseff que Lula inventou, que ficou perambulando por aí e tem fortes chances de se tornar chefe do Estado brasileiro – essa, pouca gente conhece. A maioria dos eleitores com certeza não conhece.

Como queria demonstrar.


por Bolívar Lamounier

REVISTA EXAME

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