CAMPANHAS LIMPAS E SUJAS: PESOS E MEDIDAS

CAMPANHAS LIMPAS E SUJAS: PESOS E MEDIDAS

Em 1985, com meus nove anos, lembro de ter “participado” de minha primeira campanha política. Não torcia pra ninguém, mas tinha vaga noção do que ocorria. Foi a exploração do suposto (ou efetivo) ateísmo de FHC e, no meu prédio, havia jornaizinhos pró-Jânio atacando esse “fato” (seria um crime). Aquilo seria uma campanha “suja”.

O tempo passou e, depois disso, algo parecido veio em 1989 quando Collor levou à TV, em seu programa, o caso Lurian, alegando que Lula teria pedido para que uma ex-esposa fizesse um aborto. Sem dúvida, sujeira. Golpe baixíssimo e, pelo que se diz (é impossível aferir, mas dá para especular), foi importante no resultado eleitoral.

Marta Suplicy, no início do segundo turno em 2008, na primeira inserção televisiva para o pleito à prefeitura de São Paulo, questionava se Kassab era casado e tinha filhos. A forma da indagação não era exatamente uma pergunta sobre capacidade administrativa, mas carona oblíqua em maledicências sujíssimas do esgoto político. Talvez pela falta de objetividade da coisa (não atingiu quem deveria) ou pelo histórico da petista na luta em favor dos que se ofenderam com a tática, o recurso pegou muito mal. Até hoje é lembrado.

Agora, em 2010, o aborto e o excesso de religiosidade, com panfletos religiosos à mancheia são vistos como “campanha suja”. Em alguns aspectos, pode-se abrir esse debate.

Mas esse histórico que é uma armadilha.

O que realmente seria SUJEIRA num procedimento eleitoral? Só isso? Só aquilo? O eleitor deve, de fato, questionar algumas incursões em temas teoricamente mais íntimos, mas também não pode tolerar a SUPRESSÃO TOTAL de indignação quanto a alguns outros tópicos, eminentemente de interesse público. Vejamos, por exemplo, as duas últimas eleições presidenciais.

Em 2002, a campanha petista teria pago a seu marqueteiro, Duda Mendonça, uma quantia milionária, em dólar, usando paraísos fiscais. Quem disse isso foi o próprio publicitário. Contra isso, até hoje, não houve e não há qualquer indignação por parte dos irritadíssimos defensores das “campanhas limpas”. São contra panfletos, mas parecem não ligar para dinheirama “sem origem” que aparece no Caribe sem nem aquela. Vejam aqui, aqui e aqui.

ISSO É CAMPANHA LIMPA?

2006 é um ano menos remoto e, sem dúvida, todos devem se lembrar dos “Aloprados” (esse nome foi dado por Lula…) e a tentativa de comprar o dossiê fajuto. Além do ato, em si, já sujíssimo, entra na história outro elemento pra lá de grave: DINHEIRO DE ORIGEM ILEGAL. Até hoje, aliás, não disseram de onde veio. Não há qualquer explicação sobre a origem daquela montanha de grana – e a falta de explicação torna a coisa fora-da-lei. Mas, como sabemos, os que hoje gritam contra panfletos não disseram nada naquela época. Talvez dissessem ou digam hoje, confrontados: “é do jogo” (o jogo deles).

Daí que ficam impressionantemente espantados com o fato de um padre imprimir panfletos defendendo seus dogmas. Eu, por exemplo, não concordo com nada. Sou ateu. E, se querem saber, não gastaria meu dinheiro imprimindo panfletos sobre o ateísmo, porque tenho mais o que fazer e, sobretudo, prefiro gastar meu dinheiro com outras coisas. Mas também não condeno o fato de determinados setores da sociedade militarem em seus interesses na campanha.

Soa contraditório reconhecer determinados movimentos sociais e não tolerar alguns outros. O PT adora quando o MST, por exemplo, distribui cartilhas detonando a oposição (e olha que o MST recebe lá sua ajudinha oficial vez por outra…). Por que religiosos não são legítimos na defesa de seus dogmas e doutrina?

E, nessa história toda, entram os sindicatos ou, precisa e especificamente, a CUT. Todos conhecemos a CUT, já que dispensa explicações. Uma revista da referida central foi apreendida por fazer propaganda pró-Dilma. Não é ilegal o apoio realizado por setores da igreja, mas É SIM ILEGAL QUE UM SINDICATO CUSTEIE PROPAGANDA POLÍTICA. Tanto maior, aliás, é a ilicutide dessa propaganda realizada por estatal.

E o que houve, de fato? REVISTA DA CUT QUE FAZ PROPAGANDA DE DILMA É FINANCIADA POR PROPAGANDAS DA PETROBRAS E DO BANCO DO BRASIL. Não basta ser de Sindicato, cuja propaganda eleitoral é vedada, mas é custeada também por estatais do Governo Federal. E sabem a reação dos petistas? NÃO ACEITARAM QUE TAL REVISTA FOSSE PROIBIDA! Sim, essa foi a resposta deles diante do veto (que meramente cumpriu a legislação eleitoral!).

Queriam que dinheiro público e verba sindical (proveniente de imposto cobrado de trabalhadores) custeassem uma publicação destinada a fazer propaganda para a candidatura oficial do governo. Isso é campanha limpa. Dólar sem origem definida para Offshore no Caribe? Faz parte. Dinheiro inexplicado para comprar dossiê fajuto? É do jogo.

Falar em aborto, quando a candidata é pega numa contradição? SUJEIRA! ABSURDO! ONDE JÁ SE VIU?!

E não deixa de ser tragicômico quando alguns dos blogs que subsidiam a “grita seletiva” sejam patrocinados exatamente pela Petrobras. A empresa não revelou o valor pago para a revista da CUT, mas tem blogueiro aí ganhando uma fábula para mediar debates. Mas vão dizer, já sei: “é do jogo”.

Transubstanciado por gravata


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